Partitura · junho 2025
É com uma descida às águas profundas e escuras do oceano que entramos neste solar e auspicioso mês de junho. Pode parecer um paradoxo, mas a verdade é que, conduzidos pela música de Olga Neuwirth, uma das personalidades mais celebradas da arte contemporânea, vamos descobrir lá em baixo, no chão dos mares, uma criatura luminescente – a lula-vampira-do-inferno. Sob o seu encanto, regressamos à superfície prontos para aproveitar as delícias do tempo quente. E, na Casa da Música, elas não faltam. Os primeiros dias trazem-nos logo duas daquelas irresistíveis: Criolo e Mayra Andrade. O astro paulista vem celebrar os seus 50 anos com uma revisão de carreira em que, além de combinar hip hop, samba, MPB e reggae, se aventura por ritmos como o trap, o grime, o drill ou o afrobeat; a musa cabo-verdiana chega na companhia do guitarrista Djodje Almeida para nos oferecer um concerto mágico, feito de versões íntimas, simples e iluminadas dos seus múltiplos êxitos. O universo musical de Tchaikovski impera em dois programas da nossa Sinfónica: o primeiro investe o brilhante violoncelista Pavel Gomziakov na interpretação das célebres Variações sobre um tema rococó, ao passo que o segundo nos permite conhecer alguns dos mistérios em que a Quinta Sinfonia do compositor russo ainda permanece envolta. Sob a direção do prestigiado maestro e oboísta italiano Alfredo Bernardini, a Orquestra Barroca faz um justo e criterioso périplo por obras pouco conhecidas do século XVIII, num fim de semana que o Coro é convocado a encerrar com partituras reveladoras do poder sagrado da música – do renascimento tardio à contemporaneidade. Ainda antes da abertura do Verão da Casa – o nosso arco estival da programação, que este ano decorre de 19 de junho a 6 de setembro e sobre o qual se fala em detalhe nas páginas seguintes (Tónica) – há vários nomes de peso a visitar- nos. É o caso do virtuoso pianista e compositor canadiano Tony Ann, que vem desfiar um repertório onde cabem faixas essenciais da trilogia de EPs Emotionally e também temas inéditos, demonstrativos da sua propensão para quebrar barreiras estilísticas. Outro exemplo é o da jovem cantautora portuguesa Mimi Froes, pronta a partilhar connosco o seu último trabalho de estúdio e versões alternativas de algumas das canções que o público mais aprecia, num concerto enriquecido pela presença dos convidados Tiago Nacarato e Malva (artista de grande talento que, dois dias antes, se apresenta no palco do Café). Obrigatório é ainda mencionar o Quinteto Astor Piazzolla, fiel depositário do legado do génio que lhe dá nome, incontestado mestre do tango, de quem podemos reviver criações inesquecíveis. E, claro, num mês em que termina mais um ano letivo, não há como perder de vista as sempre entusiasmantes atividades educativas da Casa – oficinas, espetáculos e formações – e os muitos concertos escolares que se realizam nas nossas salas. Porque o futuro conta, a última nota vai para a fase decisiva do Future, concurso/festival aberto a bandas e grupos de escolas de música nas vertentes de jazz e rock. Mas folheie as páginas desta Partitura e vá pelos seus dedos no caminho do sol. Já cheira a Verão da Casa.

TÓNICA
Não houvesse já 20 anos de história, documentando alegria, celebração e fruição artística, tanto ao ar livre como nos diversos espaços do edifício, e a ideia de Verão da Casa pareceria paradoxal: afinal, esta estação do ano carateriza-se pelo sair de casa. É a época alta da circulação, mas não apenas nas artérias das aldeias, vilas ou cidades onde estamos – também nas do nosso corpo. E a Casa da Música leva essa integralidade a peito. Onde quer que a Casa esteja, o Verão está. De 19 de junho a 6 de setembro, mais uma vez, a premissa cumpre-se e, tal como o sol, brilha para todos.
