31 Maio, 2025

A Música brilha para todos

Não houvesse já 20 anos de história, documentando alegria, celebração e fruição artística, tanto ao ar livre como nos diversos espaços do edifício, e a ideia de Verão da Casa pareceria paradoxal: afinal, esta estação do ano carateriza-se pelo sair de casa. É a época alta da circulação, mas não apenas nas artérias das aldeias, vilas ou cidades onde estamos – também nas do nosso corpo. E a Casa da Música leva essa integralidade a peito. Onde quer que a Casa esteja, o Verão está. De 19 de junho a 6 de setembro, mais uma vez, a premissa cumpre-se e, tal como o sol, brilha para todos. São múltiplos e das mais variadas filiações estéticas os eventos que se erguem da maré estival para nosso pleno desfrute – ondas musicais de portes distintos, mas sempre vibrantes e convidativas ao mergulho. Como não poderia deixar de ser, voltamos a viajar por palcos da Área Metropolitana do Porto que nos últimos anos têm proporcionado felicidade às populações das respetivas cidades, em concertos de entrada livre onde não há barreiras entre a erudição e a festa. O comboio arranca nas margens de Gaia com o Arrábida Sinfónica, juntando a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música à fadista Cristina Branco em torno de um programa que reúne obras de compositores como Bartók ou Saint-Saëns e danças e canções do repertório português; a paragem seguinte é no Maia Symphonic, que tem como cenário a Praça Dr. José Vieira de Carvalho, onde a nossa sinfónica se volta a apresentar, mas desta vez com um conjunto de peças famosas do catálogo orquestral, a exemplo do Bolero de Ravel; já perto do final de julho, a Casa revisita o Matosinhos em Jazz e, adivinhe, faz-se de novo representar pela Orquestra Sinfónica, na companhia de quatro nomes do jazz – Gileno Santana (flugel e trompete), João Ferreira (piano), Gonçalo Cravinho (contrabaixo) e João Cunha (percussão) – para algo completamente diferente: uma noite de nostalgia brasileira, com clássicos perpétuos como “Insensatez”, “Carinhoso”, “Garota de Ipanema” ou “Aquarela do Brasil”; o “poker” sinfónico materializa- -se, por fim, num regresso ao coração do Porto, em plena Avenida dos Aliados, celebrando convenientemente a rentrée. Estes são, dado o seu impacto e simbolismo, pontos chave de um Verão da Casa que, para não variar, une os meses de estio sob o arco-íris da música. O espectro de cores que ele irradia tem uma amostra representativa no palco da esplanada, por onde passam, também em concertos de entrada livre, estimulando brindes, sorrisos e a mais refrescante atmosfera de convívio, sonoridades como o rock, a pop, o jazz, a soul, a world, a MPB ou a música popular portuguesa. No principal auditório da Casa, não faltam nomes a elevar significativamente a fasquia. Um claro exemplo disso é Jim Jarmusch, ele mesmo, o icónico realizador norte- -americano, figura cimeira do cinema indie, que ao lado do compositor e alaudista neerlandês Jozef van Wissem, seu parceiro de aventuras musicais e autor da banda sonora de Only Lovers Left Alive, nos brinda com um concerto intenso, idiossincrático e avesso a restrições estilísticas. Não menos destaque justifica o regresso de Bill Callahan, um dos mais brilhantes cantores e compositores a emergir da cena indie-rock do fim dos anos 80, desta vez para apresentar o álbum Ressuscitate!, lançado em 2024. E o que dizer de Margareth Menezes, “a Aretha Franklin brasileira” segundo o New York Times, personalidade carismática, deusa do afropop, atriz e atual ministra da Cultura do governo Lula? Em perspetiva, um concerto de energia transbordante. Mas há muito, mesmo muito, para descobrir nas distintas vertentes programáticas do Verão da Casa. O Prémio Suggia e o Encontro de Bandas Filarmónicas marcam o início e o fim de julho: aquele com o concerto dos finalistas ao lado da Orquestra Sinfónica e a emblemática Maratona de Violoncelistas, que reúne alunos de escolas vocacionais em apresentações distribuídas por vários espaços do edifício, este com marchas e concertos a cargo de bandas filarmónicas provenientes de todo o país. Corolário do Curso de Formação de Animadores Musicais, o espetáculo Sonópolis, referência internacional na arte participativa que integra de forma homogénea músicos profissionais e não-profissionais vindos de contextos diversos de todo o país, assinala em clima de festa o fecho do ano letivo e de mais uma temporada de programação do nosso Serviço Educativo. O festival Portugal A Gosto volta a cobrir de música portuguesa – tendo sempre o fado na linha da frente – os finais de tarde do mês mais quente do ano, em concertos que podem ser associados a visitas (livres ou guiadas) com o benefício de um desconto. Mas todo o verão é uma ótima altura para conhecer a Casa da Música. O arranque oficial tem o melhor padrinho do mundo: é da noite mais longa da cidade, nos Concertos de S. João, que se levanta mais um Verão da Casa. Vamos a ele!

VERÃO DA CASA

19 JUN – 06 SET