26 Junho, 2025

Partitura · julho 2025

O passar dos anos tem demonstrado que a esplanada é um dos espaços mais representativos do Verão da Casa. As razões estão à vista: permite desfrutar das noites mais quentes do calendário em atmosfera de convívio, dá palco a concertos de adesão popular tendencialmente marcados por ritmos dançáveis e, sendo de entrada livre, proporciona momentos especiais de comunhão a públicos heterogéneos. É, pois, um cenário inclusivo e contagiante, onde se celebra o poder da música e o seu apelo à partilha da felicidade. Este mês, ali, anuncia-se fervilhante e com foco claro na lusofonia, ou não se compusesse o cartaz de seis nomes brasileiros, dois portugueses, um angolano e um guineense. A festa a céu aberto vai do ecletismo afro-brasileiro de Enio ao trance orgânico dos Olive Tree Dance, passando pela profunda sensibilidade musical e sociopolítica de Nino Galissa e sua inseparável kora, sem esquecer a mistura calorosa de kizomba, soul, blues, afro jazz, zouk e kuduro de Klaudio Hoshai, a poesia e o lirismo melódico do cantautor Arthur Nogueira, o mosaico de forró, frevo, maracatu e outros ritmos nordestinos de André Rio, o groove afro-baiano de Mocofaia, o rock instrumental enérgico e ousado do Chimpanzé Clube Trio, a imprevisível combinação eletroacústica de raízes e fontes múltiplas dos Ocenpsiea e a mescla amazónica de tradição indígena, futurismo, resistência, consciência e batidas propulsoras de Eric Terena.

Por fora, mas mais longe, vai andar também a Orquestra Sinfónica, com convidados especiais, em concertos de entrada livre que visitam espaços já habituais da Área Metropolitana do Porto. É sempre um circuito essencial do Verão da Casa, acompanhado por multidões locais e não locais que reconhecem a magia e o carácter único destas memoráveis noites de música. Os programas, diversos e surpreendentes, abrem um espectro que inclui peças famosas do catálogo orquestral, danças e canções do repertório tradicional de vários países e clássicos absolutos da música brasileira. Dentro de portas, julho dispõe igualmente de trunfos desarmantes. Como resistir, por exemplo, à possibilidade de ver em palco uma das maiores figuras de culto do cinema indie norte-americano, Jim Jarmusch, ao lado do músico neerlandês Jozef van Wissem (autor da banda sonora do filme Only Lovers Left Alive), num concerto único de alta intensidade? Outro nome proveniente dos EUA que faz soar campainhas em qualquer lado do mundo é Bill Callahan, voz grave, profunda e inconfundível da folk e do indie-rock, que nos revisita para percorrer de alma e coração o seu último álbum, Ressuscitate!. E o que dizer do furacão Margareth Menezes, atual ministra da Cultura do Brasil e porta-estandarte baiana do afro-pop, do axé e do samba-reggae, artista multifacetada (mantém, em paralelo, uma carreira de atriz), pronta a trazer o espírito e a energia do Carnaval para a Sala Suggia?

A propósito, já que falamos do auditório principal da Casa da Música, vale a pena lembrar, também este mês, mais uma edição do tributo à violoncelista portuense que lhe dá nome, com o concerto do vencedor do Prémio [Guilhermina] Suggia na companhia da Orquestra Sinfónica e, um dia depois, a Maratona de Violoncelistas, onde, como sempre, dezenas de jovens talentos do instrumento se desdobram em apresentações musicais de formatos distintos pelos quatro cantos do edifício. Mas há mais nomes a ter em atenção. Um deles é Janita Salomé, compositor e intérprete alentejano, referência incontestada da música popular portuguesa de raiz tradicional, que desvela perante nós os encantos poéticos do seu último álbum, Pássaro Azul; outro é o pernambucano Martins, um dos grandes compositores contemporâneos da música brasileira, na opinião reverenciada de um astro como Ney Matogrosso.

Verdadeira festa das comunidades, o espetáculo Sonópolis volta a assinalar o fim de mais uma temporada do nosso Serviço Educativo, reunindo em palco duas centenas de músicos profissionais e não-profissionais, vindos dos contextos sociais mais diversos. Terminado o ano letivo, realiza-se também na Casa da Música uma mão cheia de concertos escolares.

Mas se quer saber em pormenor tudo quanto pode ver e viver connosco ao longo deste bem-aventurado mês, nada melhor do que seguir o caminho do sol percorrendo as páginas desta Partitura. Cá nos encontramos!

VERÃO DA CASA

19 JUN – 06 SET

TÓNICA

São quatro concertos ao ar livre em diferentes pontos da Área Metropolitana do Porto, com repertórios muito diversificados e que fogem ao que por norma se espera de uma formação sinfónica. Os músicos da Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música voltam a sair à rua este verão, para noites em que se cruzam diferentes estilos e inspirações musicais. Há fado e jazz, mas também música do século XIX e versões de temas da música popular brasileira, uma oportunidade ímpar para ouvir e sentir a versatilidade de instrumentos que estão habitualmente ao serviço da música erudita.