Partitura · Abril 2025
Há um antigo provérbio chinês que diz: “A melhor época para plantar uma árvore foi há 20 anos; a segunda melhor é agora”. A 15 de abril de 2005, era descerrada a placa da Casa da Música, o primeiro edifício construído em Portugal exclusivamente dedicado à arte de organizar os sons. Sobre um tronco comum foram crescendo inúmeros ramos, cujos frutos, depois de nutrirem milhões de espetadores e visitantes, voltaram à terra e realimentaram a árvore, hoje de parabéns porque faz 20 anos. Cumpre-se assim um honroso capítulo e, em continuidade, sem intervalos, dá-se início a um novo.
Símbolo disso é a passagem de testemunho entre o rosto principal do projeto da Casa ao longo destas duas décadas, António Jorge Pacheco, e a pessoa que lhe sucede no cargo de diretor artístico, François Bou. Com o fito de satisfazer a natural curiosidade do nosso público sobre a visão do ex-diretor geral da Orquestra Nacional de Lille para o futuro da Casa da Música, publicamos uma entrevista nesta Partitura, que fecha com um “mural” onde surgem afixados os testemunhos de quem aqui trabalha desde o primeiro dia e, por isso, está também de parabéns. A programação de abril reflete, sentimos, as premissas de diversidade, inclusão e valorização da música anunciadas aquando da abertura. É um mosaico de géneros e correntes que atravessam a história, dirigindo-se aos públicos e gostos mais variados.
Vale pelo seu conjunto, evidentemente, mas isso não impede que aqui assinalemos alguns destaques. Desde logo, no primeiro dia de abril, e pode acreditar porque é verdade, The Legendary Tigerman celebra em palco os 15 anos de um dos seus álbuns mais marcantes, Femina. A Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música interpreta o Concerto para piano n.º 2 de Tchaikovski, acompanhando a prestigiada pianista norte-americana Claire Huangci. O mesmo instrumento é depois entregue às prodigiosas mãos de Alexander Malofeev, tido como o último fenómeno da escola russa, em mais um recital do Ciclo Piano. E, a provar que não há duas sem três, outro grande pianista, o português Mário Laginha, reencontra-se com um dos nossos maiores fadistas, Camané, para revisitar o álbum Aqui está-se sossegado, editado por ambos em 2019. Já no âmbito dos concertos de Páscoa, a Orquestra Barroca faz-nos uma proposta irrecusável: escutar o Stabat Mater de Pergolesi, um dos exemplos mais perfeitos da literatura musical sacra europeia. Referência artística para as novas gerações, ao promover uma combinação sui generis entre a música tradicional e a eletrónica, Ana Lua Caiano submeteu a sua criação aos arranjos da Orquestra Jazz de Matosinhos, com a qual nos apresenta agora o resultado desse surpreendente desafio. Em nova aparição, a Sinfónica interpreta uma obra fundamental do repertório: a luminosa Quarta Sinfonia de Beethoven. Projeto solo de Maarten Devoldere, vocalista e compositor da banda belga de indie pop-rock Balthazar, Warhaus está de regresso com um novo álbum, Karaoke Moon. E, finalmente, que melhor forma de fechar este mês de especial simbolismo do que reavivar um dos eventos mais icónicos da história da Casa? Falamos do Clubbing, que se associa às celebrações de aniversário numa edição de entrada livre com um cartaz inclusivo e desafiante, que nos leva em êxtase até às primeiras horas do mês de maio. Antes de selarmos o convite à leitura atenta desta Partitura, onde pode conhecer em detalhe tudo o que a programação de abril lhe reserva, cabe-nos ainda destacar um dos festivais mais emblemáticos do Serviço Educativo, este ano com três concertos (dois deles de entrada livre) e uma oficina que honram o seu título: Ao Alcance de Todos. Sejam então todos muito bem-vindos ao 20.º aniversário da Casa da Música!

20.º ANIVERSÁRIO DA CASA DA MÚSICA
01 – 30 ABR
TÓNICA
Em entrevista à Partitura, o novo diretor artístico da Casa da Música expõe a sua visão para o projeto até agora liderado por António Jorge Pacheco, cujo trabalho lhe merece os mais rasgados elogios. Entre outras ideias, François Bou diz ser importante a Casa potenciar os seus agrupamentos residentes, desenvolver a transversalidade artística, reforçar a abertura do repertório, visibilizar crescentemente a programação educativa, atrair novos criadores, jovens e consagrados, nacionais e internacionais, e dar ao público mais ferramentas para abordar obras de arte.
A CASA DENTRO DE NÓS
Vinte anos passados, mil e uma experiências foram vividas por quem cá trabalha, para proporcionar momentos inesquecíveis a quem cá vem. Sendo este um momento em que todos – equipa e público – estamos de parabéns, fizemos um desafio aos nossos colegas mais antigos, aqueles que acompanharam por dentro a vida da Casa desde o seu nascimento: contarem o que mais os marcou, o que fica para sempre, de tanta coisa vivida, em cada um deles.

