François Bou – Entrevista

Em entrevista à Partitura, o novo diretor artístico da Casa da Música expõe a sua visão para o projeto até agora liderado por António Jorge Pacheco, cujo trabalho lhe merece os mais rasgados elogios. Entre outras ideias, François Bou diz ser importante a Casa potenciar os seus agrupamentos residentes, desenvolver a transversalidade artística, reforçar a abertura do repertório, visibilizar crescentemente a programação educativa, atrair novos criadores, jovens e consagrados, nacionais e internacionais, e dar ao público mais ferramentas para abordar obras de arte.
O que é que o fez, nesta fase da vida, separar-se da família e vir trabalhar para Portugal?
Não é a primeira vez que trabalho fora de França. Trabalhei em Londres como agente artístico e depois em Barcelona como diretor da Orquestra Sinfónica de Barcelona. Sempre andámos de um lado para o outro, de certa forma é uma oportunidade para os nossos filhos, que estão assim a abrir-se a outros países, a outras línguas. Gosto de trabalhar fora de França. É muito estimulante, um enriquecimento cultural recíproco. Para mim é natural, sinto-me um cidadão europeu. E devo admitir que me sinto muito bem aqui!
Mas o que o seduziu, especificamente, no projeto da Casa da Música?
Várias coisas. É uma das grandes instituições musicais da Europa, reconhecida como tal pela sua pertença à rede ECHO, que reúne as maiores salas de concerto europeias. Também a sua especificidade de reunir agrupamentos que abrangem o repertório musical desde o Renascimento até aos dias de hoje. É uma grande oportunidade poder trabalhar com a Orquestra Sinfónica do Porto, a Orquestra Barroca e o Remix Ensemble, internacionalmente reconhecido, o Coro, o Coro Infantil, a programação de música popular de alta qualidade e também este grande Serviço Educativo, um dos mais importantes da Europa. E, depois, devo dizer que encontrei equipas e artistas muito competentes e extremamente motivados, o que também é uma grande mais-valia para desenvolver um projeto forte.
Ao longo da sua carreira ocupou cargos de programação, mas também de direção e gestão de produção. Qual dessas vertentes o estimula mais e por que razões?
Foi importante para mim exercer muitas das profissões no setor da música, de cantor a diretor-geral de orquestras, passando pela produção de ópera, de gestor de palco a orchestra manager, de agente a diretor artístico… Isso dá-me um conhecimento de campo do nosso setor. Mas acho que o que mais me estimula é a programação, porque estamos no coração da raison-d’être das nossas instituições. Na verdade, mesmo como diretor geral, nunca desisti de programar. As instituições são concebidas para estarem ao serviço da criação artística, do projeto cultural e do público. Não o contrário.
O júri que o escolheu para este cargo disse reconhecer em si uma visão clara do que pode ser o projeto artístico da Casa da Música. Quer apresentar-nos, em síntese, essa visão?
O que sempre me motivou foi compartilhar, com o maior público possível, essa mais alta criação humana espiritual e artística que é a música. É a minha bússola artística e humana. A partir dos agrupamentos residentes, pretendo desenvolver ainda mais a transversalidade artística de forma a gerar ainda mais pontes entre diferentes artistas e públicos. Isto também se aplica à programação educativa e de música popular. Quero reforçar a abertura do repertório, mas também dar à criação contemporânea o seu devido lugar. A nossa instituição é reconhecida internacionalmente, em particular pela sua política de criação contemporânea em ressonância com a arquitetura única de Rem Koolhaas! Quero atrair novos artistas, portugueses e internacionais, tanto da geração mais jovem como artistas consagrados que ainda não se estrearam no Porto. Parece-me que devemos também desenvolver encontros entre artistas e público que permitam tecer uma ligação humana real entre espetadores e artistas. Temos de ter cuidado para não confundir uma cultura para todos com um programa que agrada a todos. Nesse sentido, precisamos dar ao nosso público mais ferramentas para abordar obras de arte. A inclusão de um novo público só faz sentido se o objeto que lhe é apresentado for de elevada ambição artística, no auge da arquitetura da Casa, mas parece-me que devemos tornar os nossos espaços extraordinários ainda mais animados e conviviais. Os museus têm sido capazes de evoluir nesse sentido, e nós também podemos fazê-lo. Quero também relançar a nossa política audiovisual, que dá a conhecer melhor a nossa instituição a um público mais vasto e lhe confere visibilidade internacional. Quero mais ancoragem territorial, mais colaborações com instituições culturais portuenses, mais transversalidade entre disciplinas e gerações, mais jovens e acessibilidade.
Admite que essa visão possa vir a ser parcelarmente influenciada pelo conhecimento progressivo da cidade e da nossa cultura?
Uma política cultural não é sem solo! Tal como uma vinha, as suas qualidades dependem da natureza do solo, das condições climatéricas locais e do paladar dos consumidores! É claro que o conhecimento e o respeito pela cultura local e nacional alimentam a forma de programar. O projeto cultural e institucional da Philharmonie de Paris não é completamente igual ao da Konzerthaus de Viena ou ao da Casa da Música. Mesmo que a dimensão europeia seja transversal.
Como vê o papel dos agrupamentos residentes e de que forma gostaria de potenciá-los nos planos nacional e internacional?
O papel dos agrupamentos é primordial, é a própria essência do projeto da Casa da Música há 20 anos e o que o torna rico e específico. Desejo desenvolver estes agrupamentos convidando maestros e solistas de alto nível que os inspirem. O contexto internacional é complicado hoje, mas encontraremos formas de os recolocar no tabuleiro de xadrez nacional e internacional.
E quanto à esfera do Serviço Educativo? Defende uma maior interconexão com a programação artística ou prefere conferir-lhe uma relativa autonomia?
Como diretor artístico e educativo, claro, desejo uma maior interligação com a programação artística. Encontrei uma equipa muito motivada nesse sentido. Penso também que precisamos incentivar ainda mais o público dos programas educativos a aproveitar a programação excecional que a Casa da Música oferece. O programa educativo é uma grande abertura para a cidade e uma porta de entrada incomparável para a Casa.
Antes de se profissionalizar nas áreas já descritas, fez o Conservatório Nacional Superior de Música e Dança de Paris. De onde vem a sua paixão pela música?
Comecei muito jovem com uma paixão pelo teatro. Depois, no conservatório da minha cidade natal, Saint-Quentin, pelo canto e pela ópera, o que me levou à música em geral. E, depois, a minha posição como coordenador da orquestra com Pierre Boulez, no Ensemble Intercontemporain, abriu-me definitivamente à criação contemporânea.
Equipamentos como a Casa da Música, até pela heterodoxia da sua arquitetura, são muitas vezes vistos como elitistas. Como pretende, nesse sentido, contribuir para abri-la cada vez mais à cidade?
Diz-se que a Casa parece um meteorito, ou melhor, uma nave espacial… Bem, embarquem numa viagem extraordinária às infinitas galáxias da criação musical!
Portugal é um país economicamente mais frágil do que França. As novas gerações, consumidas pela extrema dificuldade, desde logo, em comprar casa, prescindem muitas vezes de ir a concertos a que gostariam de assistir. Acha que há medidas estratégicas que possam ser adotadas para atenuar esse problema?
Também em França o problema se coloca. A Casa da Música já oferece preços de bilhetes bastante acessíveis. O preçário dos bilhetes é importante, claro, mas também tempos de programação atrativos e, sobretudo, uma experiência social que a Casa da Música tem o potencial para poder desenvolver ainda mais.
A Casa da Música faz 20 anos. Sendo os olhares externos sempre necessários, mais ainda vindos de pessoas muito conhecedoras do meio, como aprecia o percurso feito até agora?
É uma trajetória impressionante! Singular. O Eng.º António Jorge Pacheco implementou uma visão inovadora e inteligente para esta instituição única. Está próxima da minha própria visão, que tem guiado a minha ação, particularmente em Barcelona e Lille. A Casa da Música promove o Porto e Portugal na Europa, principalmente por via da criação contemporânea e do seu programa educativo. É agora necessário dar a conhecer melhor os outros conjuntos, de elevada qualidade, levar a Orquestra Sinfónica à fase seguinte do seu desenvolvimento. Se a Casa tem um público fiel, o que é uma grande oportunidade, o vínculo com toda a população deve ser fortalecido. A instituição tem também um papel profissional nacional, os agrupamentos proporcionam ainda oportunidades de trabalho aos músicos do país. Neste sentido, a Casa da Música é também um passo importante para artistas de música popular do país ou do estrangeiro, que são escolhidos de acordo com critérios de qualidade dos quais não se deve abdicar.
Para terminar, e embora o seu mandato na Casa, por enquanto, seja apenas de quatro anos, que desejos tem para os próximos 20?
Espero que continue a reforçar a sua influência como referência artística portuguesa e internacional. Que seja cada vez mais a casa de todos e de toda a música. Que saiba estar aberta às mudanças do seu tempo. Sem nunca perder a mais alta exigência artística, na ausência da qual nada faria sentido.