Partitura · Novembro 2025
Orquestra Sinfónica, Remix Ensemble, Orquestra Barroca e Coro – o elenco completo de agrupamentos residentes “seniores” da Casa da Música junta-se para andar À Volta do Barroco, que é como quem diz interpretar não apenas repertório daquele período, mas também obras posteriores – incluindo contemporâneas e novas em estreia – por ele influenciadas. A chave que abre a porta deste festival anda ela própria à volta, pois de um requiem espera-se que feche – mas aqui falamos “do” Requiem, a última e inacabada, portanto aberta, obra de um génio intemporal chamado Mozart, que nos põe a todos a andar à volta dos insondáveis mistérios da vida. Noutro contexto, a Orquestra Sinfónica regressa para mais quatro concertos ao longo do mês, dando-nos a escutar música de Sergei Prokofieff e, em estreia mundial, do seu neto Gabriel, o famoso Concerto Triplo de Beethoven, as Danças Sinfónicas de Rachmaninoff e a Sinfonia Manfred de Tchaikovski. Alguns destes compositores passam também pelas mãos dos pianistas que dão corpo e alma a uma rara dose dupla do Ciclo Piano, a abrir e a fechar o mês, como uma moldura dourada: primeiro, é o russo Dmitry Shishkin; depois, a ucraniana Dinara Klinton. Uma bênção da música.
Em áreas não clássicas, dir-se-ia que novembro toca todas as campainhas do nosso cérebro, tal a abundância e diversidade de propostas com que se anuncia: do triângulo soul-jazz-hip hop de Myles Sanko ao samba de amplo espectro de Paulinho da Viola, do virtuosismo multicultural do violinista Ara Malikian às canções simples e intimistas de Rubel, da guitarra flamenca de Daniel Casares à mistura hipnótica de composição clássica e experimentalismo eletrónico dos Grandbrothers, passando por um vasto contingente português onde cabem o novo disco de JP Coimbra, Revealing, o fado de Miguel Martins, a celebração do 45.º aniversário dos Jafumega, a estreia ao vivo do álbum Beats Vol. 1: Amor de Sam the Kid (com orquestra e os Orelha Negra), a pop alternativa de S. Pedro e, em concertos de entrada livre no café, três talentos por descobrir – Mariana Reis, Sam Nóbrega e April Marmara. E a amplitude do leque não fica por aqui, longe disso: de forma destacada, impõe- se sinalizar o regresso da parceria entre o Misty Fest e a Casa da Música, como sempre com um cartaz de curadoria identitária que equilibra nomes consagrados e talentos emergentes, da folk à música orquestral, do jazz ao fado, do rock à eletrónica ou às sonoridades do mundo.
Diversas são também as atividades de pendor educativo, especialmente vocacionadas para um público familiar. Entre concertos e oficinas, novembro traz-nos um sugestivo naipe de universos, criados a partir da música, em que vale muito a pena entrar – e participar.
Nas páginas desta Partitura encontra o que precisa de saber sobre todos os concertos e demais eventos do mês. O encontro seguinte, esperamos, é connosco, a celebrar a magia da música. Boa leitura!

TÓNICA
João Carlos Pinto é o Jovem Artista em Residência da Casa da Música em 2025. Ao longo deste ano, o compositor tem vindo a trabalhar com três agrupamentos, num percurso que culmina agora com a estreia de três novas obras: uma para o Quarteto Tágide – vencedor do Prémio Jovens Músicos –, uma para o Remix Ensemble e outra para a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música. Mas limitar estas obras à música seria redutor. Todas elas integram elementos como um desenho de luz próprio e interativo, cenografia, movimento, adereços e figurinos. Não são adições decorativas, mas parte essencial do espetáculo – como o são, segundo o próprio, mesmo no mais tradicional dos concertos. As orquestras têm um figurino, uma coreografia, adereços e um desenho de luz. Por que não torná-los parte estrutural da performance?
