O “XAMÃ CÉTICO” E O TECNO-ANIMISMO
João Carlos Pinto é o Jovem Artista em Residência da Casa da Música em 2025. Ao longo deste ano, o compositor tem vindo a trabalhar com três agrupamentos, num percurso que culmina agora com a estreia de três novas obras: uma para o Quarteto Tágide – vencedor do Prémio Jovens Músicos –, uma para o Remix Ensemble e outra para a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música. Mas limitar estas obras à música seria redutor. Todas elas integram elementos como um desenho de luz próprio e interativo, cenografia, movimento, adereços e figurinos. Não são adições decorativas, mas parte essencial do espetáculo – como o são, segundo o próprio, mesmo no mais tradicional dos concertos. As orquestras têm um figurino, uma coreografia, adereços e um desenho de luz. Por que não torná-los parte estrutural da performance?
A sua relação com a tradição da música clássica é, por isso, curiosa: não se trata de rejeitar o passado, mas de fazer brotar um novo ramo que alia a riqueza do cânone clássico e dos seus criadores e pensadores a conceitos e estéticas contemporâneos como o glitch, a imaterialização da realidade ou os videojogos. Em vez de procurar ruturas, João Carlos Pinto usa todos os recursos – antigos e novos – em favor das intenções artísticas de cada obra. O resultado pode, por vezes, parecer disruptivo, mas não por uma questão estilística: é antes uma consequência natural dos objetivos da peça. A história, os códigos e a prática de cada agrupamento tornam-se, assim, matéria viva do concerto – pontos de partida para novas experiências.
Essa abertura estende-se à forma como lida com a tecnologia. Fascinado pela espiritualidade tecnológica (sem a confundir com o divino), o compositor explora as zonas intermédias entre o humano e o maquinal – do tecno-animismo ao tecno- xamanismo –, vendo a tecnologia não apenas como uma ferramenta que traz, ao mesmo tempo, precisão e aleatoriedade, mas como parte integrante de uma experiência sensorial e emocional profundamente humana e pessoal. A sua música é, nesse sentido, essencialmente colaborativa: ora feita com pessoas, ora com máquinas, muitas vezes com ambos. Há quem o descreva como um “xamã cético”: alguém que reconhece o poder transformador dos rituais – como o tarot – sem cair no misticismo. O que o interessa é a ambiguidade: esse espaço fértil onde a interpretação, o acaso e a intuição convivem. Para ele, a arte serve para abrir horizontes e criar ressonâncias interiores, não para oferecer respostas.
E se é verdade que as três obras estão agora concluídas, seria um erro pensar que o trabalho terminou. Pelo contrário: dada a natureza colaborativa, improvisatória e performativa das suas criações, é impossível prever como cada uma se revelará em palco. Mesmo o compositor não o sabe por completo. O que nos propõe é, acima de tudo, uma partilha – o prazer de descobrir, com o público, o que acontece quando som, corpo, luz e tecnologia se encontram num mesmo ritual de criação.
