As Mãos por D. Helena

Maio escreve-se ao piano na Casa da Música: é o mês de Helena Sá e Costa, mulher incontornável da música portuguesa do século XX, figura maior nos palcos internacionais e na formação de muitos dos grandes pianistas portugueses.
Nascida a 26 de maio de 1913 no Porto, cresceu a ouvir música, “música da boa”, como dizia. Neta de Bernardo Moreira de Sá, fundador do Conservatório do Porto e do Orpheon Portuense, era filha dos pianistas Leonilda Moreira de Sá e Costa e Luiz Costa, também compositor. Começou a estudar piano muito cedo, ainda em casa, num ambiente de grande estímulo artístico. Teve depois como mestre Vianna da Motta e, já fora de Portugal e com 20 valores no curso do Conservatório Nacional de Lisboa, foi aluna de Paul Loyonnet, Alfred Cortot e Edwin Fischer, músico com quem fez mais de 40 concertos.
Como intérprete, foi amplamente reconhecida por personalidades do mundo das artes, de Pablo Casals a Lopes-Graça. Teve uma notável carreira internacional na Europa, nas Américas e em África, como solista em música de câmara ou com orquestra. “Tinha uma projeção internacional absolutamente fabulosa”, salienta o pianista Fausto Neves, antigo aluno de Helena Sá e Costa.
Responsável pela primeira audição em Portugal da integral de O cravo bem temperado, de Bach, estreou múltiplas peças de compositores portugueses seus contemporâneos. Tinha entre os favoritos Mozart, Beethoven, Schubert, Chopin, Mendelssohn, Schumann, Brahms, Debussy, Ravel e Falla. E tocou Seixas, Bomtempo, Luiz Costa, Armando José Fernandes, Croner de Vasconcelos, Carneyro, Lopes-Graça, Joly e Fernando C. de Oliveira. Com a irmã Madalena, violoncelista, dedicou-se à música de câmara, com o Trio e o Quarteto Portugália.
O talento de Helena Sá e Costa levou-a aos principais palcos internacionais, mas a projeção que conheceu fora do país extravasou as salas de concerto, ao conquistar fama como professora. Orientou cursos nos Festivais de Salzburgo, em Karlsruhe e no Texas.
Em Portugal, foi a sucessora do mestre Vianna da Motta no Conservatório de Lisboa e esteve também no Conservatório do Porto, fundado pelo seu avô. Entre 1960 e 1980, ensinou nos Cursos de Música do Estoril. No Largo da Paz, à Boavista, na casa da família e dos dois pianos Bechstein, formou várias gerações de pianistas. E era aqui que passava a ser apenas a D. Helena.
“Conhecia tudo, o que era chocante para nós”, recorda Fausto Neves. E, quando não conhecia, identificava de imediato “as passagens mais difíceis” do repertório que os alunos lhe levavam. Mulher de uma enorme cultura, tinha sempre uma história para contar aos alunos, e uma forma muito peculiar de os conquistar para o instrumento. “Os músicos têm altos e baixos, e às vezes os baixos são violentos. Ela dava- -nos sempre uma ideia muito positiva, um ânimo para continuarmos a trabalhar”. Durante vários anos da sua formação, o pianista fruiu de um “ambiente de luxo ao nível do estímulo artístico, do cuidado pedagógico que não é escolar, académico, mas sim um cuidado pedagógico muito estimulante para o espírito e para a sensibilidade”.
Helena Sá e Costa tinha uma postura assumidamente crítica sobre a falta de opções para os grandes músicos formados em Portugal e que, estudos concluídos, não tinham um caminho para percorrer, por não haver “uma estrutura definida”. Pedia mais palcos, porque a música se faz para ser partilhada. “Este lado de missão – a difusão da música – é uma coisa que fica muito dela”, diz Fausto Neves, também ele professor, sobre a herança de D. Helena, sempre presente.
Por aqui, cumpre-se o legado da pianista com “uma paixão de sempre”: Três pianos para Mozart tocados pelos multipremiados Julius Zeman, Mona Asuka e Shun Oi. Noutro programa do ciclo que lhe é dedicado, Benjamin Grosvenor, o maior pianista britânico da atualidade, traz-nos Brahms, Schumann e Mussorgski. O tributo à pedagoga faz-se com centenas de alunos de piano, na Maratona de Teclistas que enche, ao longo de dois dias, diferentes espaços da Casa da Música. Tudo sob o aplauso de D. Helena.