Villa-Lobos: não apenas vivo, mas urgente

Autodidata, excêntrico e indomável, o compositor, maestro, educador e músico brasileiro Heitor Villa-Lobos (5 de março de 1887 – 17 de novembro de 1959) nasceu numa família modesta, de ascendência açoriana pelo lado paterno. Carioca do bairro das Laranjeiras, veio ao mundo prematuro e envolto na bolsa amniótica – sinal de bom augúrio, segundo a crença da época –, recebendo desde logo a alcunha de Tuhú de uma das irmãs, incapaz de pronunciar o seu nome. Nada fazia prever que, ainda em vida, se tornaria o maior compositor das Américas do século XX.
O seu destino dividia-se entre expectativas familiares: a mãe, que sofrera dificuldades com o próprio progenitor – musicista popular e boémio – desejava um filho médico, de profissão considerada estável; o pai, funcionário público sofrido, autor de manuais escolares e violoncelista amador, sonhava vê-lo seguir uma via intelectual. Foi o pai quem assumiu o papel de preceptor, impondo-lhe uma educação rígida, marcada por constantes conflitos com o temperamento indómito do rapaz. Ainda assim, transmitiu-lhe o amor pela música de concerto, o domínio do violoncelo e a memória dos ensaios nocturnos de quartetos de cordas, que o jovem espiava em segredo por entre os balaústres da escada – na mesma casa da infância onde se deliciava a ouvir uma tia pianista tocar Bach, encanto que desaguaria, no futuro, na série das Bachianas Brasileiras.
Com a morte precoce do pai, a mãe tornou-se lavadeira, e a rigidez doméstica afrouxou-se. Na adolescência, Villa-Lobos mergulhou na cultura popular do Rio de Janeiro: viveu o choro1, integrou grupos musicais informais, participou em desfiles carnavalescos, fez serenatas, presenciou batucadas, praticou capoeira e trabalhou como violoncelista em cafés e no teatro musicado – neste, sob direcção de maestros como Chiquinha Gonzaga. Essa vivência urbana, espontânea e mestiça revelou-se tão formadora quanto os grandes conservatórios. Com humor, dizia que estudara na fictícia Universidade de Cascadura, tendo como mestres os músicos populares negros Donga e Pixinguinha. Passou ao largo do Instituto Nacional de Música, pois precisava de trabalhar para ajudar no sustento da família.
Para além da cidade natal, Villa-Lobos percorreu o Brasil em profundidade, viajando quase uma década como caixeiro-viajante, vendedor de enciclopédias, doces de banana, caixas de fósforos e outras mercadorias. Esse contacto com a diversidade cultural e natural do território, em especial na Amazónia, foi decisivo para a sua estética. Tornou-se pioneiro na valorização da natureza como património artístico, inspirando-se nela para criar obras como Uirapuru, Amazonas e Floresta do Amazonas, e musicalizou cantos indígenas, integrando-os de forma inovadora na sua linguagem.
Também desafiou as convenções do seu tempo ao esbater fronteiras entre música erudita, popular e étnica. Rejeitou formas europeias canónicas, incorporando instrumentação afro-brasileira, temas indígenas e melodias populares. Levou Amazonas e Choros n.º 10, entre outras peças transbordantes de Brasil, a palcos prestigiosos da Paris dos (loucos) anos 1920, perante plateias que incluíam Maurice Ravel e Sergei Prokofieff. Tudo isso despertou a ira da ala conservadora e racista da crítica brasileira, alinhada ao eugenismo tropical. “Barulhista”, disseram, Villa-Lobos praticava “música de negros”.
Na complexa Era Vargas (1930–1945), dedicou-se à implantação do ensino da música nas escolas públicas, através da prática coral em larga escala, vendo a educação musical como instrumento de formação cívica. “Para se cantar junto, é preciso ouvir o outro”, afirmava, resumindo a sua visão profundamente humanista da música.
Depois de lutar por uma década contra um cancro agressivo, à data da sua morte, em 1959, Villa-Lobos mereceu um editorial de página inteira no The New York Times, reconhecimento raro para um compositor latino-americano. Deixou cerca de mil obras, distribuídas por uma riquíssima diversidade de formações, e admiradores ilustres, de Arthur Rubinstein a Antonio Carlos Jobim. No Brasil, a sua data de nascimento é celebrada como o Dia Nacional da Música Clássica.
O legado de Villa-Lobos vai, no entanto, além da reinvenção da linguagem musical do seu país e da inédita projeção internacional de um compositor brasileiro. A sua obra carrega uma densa carga simbólica, antirracista e decolonial avant la lettre, ao colocar no centro vozes, ritmos e imaginários historicamente marginalizados. Há também uma rara dimensão feminista, visível na parceria com a diplomata e poeta Dora Vasconcellos nas eternas canções de Floresta do Amazonas, em que música e palavra se encontram num diálogo de plena igualdade criadora.
Em 2026, portanto, Villa-Lobos permanece não apenas vivo, mas urgente: a sua obra, visionária e arrebatadora, afirma-se como uma escuta necessária num mundo de extremos, lembrando-nos que é possível – e belo – reconciliar diferenças, memórias e visões de futuro.
[1] Mais importante género musical instrumental brasileiro, resultado da hibridização de danças europeias com a música afro-brasileira urbana da época.