Para Ler / 19 de Junho, 2026

Julho à flor da pele

A cidade está convidada

O verão na Casa da Música tem um endereço certo: a esplanada. É por lá que a cidade se encontra para sentir a música – e fica. 

As sessões ao ar livre começam com os argentinos El Sonidero Insurgente: rock de punho erguido, dança sem medo, energia transbordante. Toma depois o palco Lala Tamar – toca guimbri, consagra o corpo ao ritmo e canta em árabe, amazigh e português. Seguem-se dois baianos: Eric Assmar (um mestre do blues) e Melly (nomeada para um Grammy Latino com a sua fusão de R&B, pop contemporânea e musicalidades afro-brasileiras). Há ainda o pernambucano André Rio (o maracatu tornado hino), LUIZGA em dueto com o percussionista Juninho Ibituruna, o Organ Trio do prodigioso baixista chileno Christian Gálvez, Nico Guedes (soul, funk e R&B) e Leo Bianchini, ex‑5 a Seco, que encontra o pianista italiano Gianni Cappiello. Para fechar, Jasmim em registo piano e guitarra, numa intimidade que dispensa artifício. Tudo de entrada livre. Tudo à sua espera. 

Dentro de portas, somam-se os momentos que pedem uma escuta profunda. Jason Moran é o primeiro. Pianista, compositor, força transformadora do jazz desde os anos 90. Dezoito anos na Blue Note, bandas sonoras para Selma e 13th de Ava DuVernay, tributos inesquecíveis a Thelonious Monk e a Fats Waller. Em palco, não se limita a tocar: constrói pontes entre séculos, geografias, pautas de luta e improvisos. 

Sob a direção do maestro Diogo Costa, a Orquestra Sinfónica alia-se a Pedro Abrunhosa num concerto solidário para com as vítimas da tempestade Kristin. Não é todos os dias que uma formação sinfónica abraça a canção popular com esta generosidade – e o gesto, por vezes, é tão importante quanto a música. 

Como tem sido hábito ano após ano, o Maia Symphonic leva de novo a nossa orquestra à Praça Dr. José Vieira de Carvalho com um programa de puro gozo. Desta vez, preenchem-no a abertura de O Holandês Voador de Wagner, trechos de Verdi e Rossini, a Leichte Kavallerie de Suppé, Die Fledermaus de Strauss e a deliciosa Gaîté parisienne de Offenbach/Rosenthal. O mesmo palco recebe na noite seguinte a Orquestra Clássica da Maia. São dois concertos de entrada livre. 

O Sonópolis é a festa do Serviço Educativo. Cerca de duzentas pessoas no palco da Sala Suggia: formandos do Curso de Animadores Musicais, músicos profissionais, crianças e avós. O espetáculo não tem plateia – tem comunidade. É bonito de ver, mas sobretudo de ouvir: a diversidade como matéria-prima, a partilha como único instrumento. 

O Prémio Internacional Suggia elege os três finalistas que tocam com a Sinfónica. O Festival MIA revela os finalistas do mestrado da ESMAE. A Orquestra Orff do Porto celebra quarenta anos de música em grupo. 

Os brasileiros Barbatuques fazem música só com o corpo – palmas, estalos, batidas no peito, meio milhão de seguidores e três décadas de invenção rítmica. A cantora e compositora portuguesa HIARA assume a Geração Casa para percorrer em quinteto os temas do álbum Algo Que Não Sei Guardar. Considerado por Ney Matogrosso um dos grandes compositores contemporâneos da música brasileira, Martins convida-nos para uma autobiografia sonora, um ramalhete de canção nordestina, MPB, samba e baladas românticas. 

O Café com Nata oferece uma das Suites para violoncelo de Bach ao lado de Benjamin Britten, num programa de pura subtileza. E o Encontro de Bandas Filarmónicas percorre seis localidades – de Terras do Bouro a Torres Novas – com o som dos sopros e da percussão, em nome de uma tradição antiga que não perde o seu fogo. 

Julho não é mês de pausa. É de esplanada, de estágios, de talento emergente, de fusões, de pianistas que redefinem o jazz e de orquestras que preparam o futuro. A Partitura abre-se. A cidade está convidada.