Frank Zappa ou a arte de se s(ab)er quem se é

Quem era Frank Zappa (1940-1993)? Por ocasião da sua morte, os media norte-americanos chamaram-lhe músico de rock, famoso por canções elaboradas e não convencionais com letras atrevidas, pela crítica à indústria musical, ao sistema educacional e à cena política, pelos atritos com a Igreja e com a polícia, e ainda por ter sido banido de estações de rádio. Mas havia muito mais, nem sempre captado pela lente mediática. Naquela “massa ambulante de contradições” (palavras de Ruth Underwood) pulsava uma visão criativa de uma abrangência que ainda hoje desconcerta, avessa a subterfúgios, da qual brotou um legado tão absolutamente livre quanto refletido, tão multifacetado quanto coerente e pessoal. Para lá de mera excentricidade, Zappa assumiu sempre uma fidelidade total ao mundo interior que o habitava, sem dissimulações – desafiando repetidamente convenções, poderes instituídos de todo o tipo, pretensões do establishment e tantos -ismos que via em redor (fossem os da moda ou outros).
A sua música espelhou tudo isto, mantendo-se incategorizável. Não era rock, tampouco era jazz (“jazz is not dead, it just smells funny”, dizia), muito menos era música pop. De tão intricada, detalhada e tecnicamente exigente, podia até ser ouvida como música erudita no devido contexto, sem no entanto deixar de incluir – e ao mesmo tempo desconstruir – tópicos destas e de outras tradições, numa iconoclastia irredutível.
Atraído para a música por um álbum com obras de Varèse, este autodidata absoluto lançou-se à escrita de música orquestral ainda antes de pegar na guitarra a propósito do gosto por blues. Notabilizou-se com os Mothers, banda que fundou na segunda metade dos anos 60 como meio de subsistência e, sobretudo, de experimentação e escuta das suas próprias criações, que brotavam a um ritmo frenético. A banda duraria pouco, mas o ethos manteve-se sempre: de onde Zappa estivesse, a qualquer momento podia surgir tudo – do velho doo-wop a Varèse ou à música concreta, passando por quaisquer géneros imagináveis entre os dois pontos, e ainda incluindo uma componente teatral e um humor irredutível, absurdo e excêntrico. O intuito era assumido: provocar o público até ao ponto em que questionasse o seu ambiente e pudesse fazer algo sobre ele. A música orquestral voltaria para primeiro plano nos últimos anos de vida, destacando-se o trabalho com ensembles de renome da cena contemporânea, como o Ensemble Modern, dirigido por Peter Rundel (grupo com o qual Zappa gravou o seu último álbum e partilhou a sua última atuação).
Pode-se testemunhar tudo isto e tanto mais no documentário Zappa, que a Casa da Música exibe em dezembro e que tem muito por onde surpreender qualquer público. Será seguramente a maneira ideal de abrir o apetite para o concerto Uma Noite Com Frank Zappa, em que teremos o privilégio de ter Peter Rundel a dirigir de novo alguma dessa música que estreou há mais de três decadas, ainda e sempre cheia de vitalidade e de uma identidade irrepetível.