Caminho para a Primavera
De um lado, as últimas reverberações do profundo inverno sinfónico, com obras monumentais a sondar as grandes questões existenciais. Do outro, a preparação para a renovação pascal e os primeiros eflúvios da estação das flores. A programação de março é, em si mesma, uma viagem do íntimo ao cósmico, das raízes ancestrais às sementes do futuro.
A jornada sinfónica começa com uma obra de luto e introspeção: a Sétima Sinfonia de Dvořák, apresentada num concerto comentado que nos ajuda a desvelar o mistério da sua atmosfera sombria. A Orquestra Sinfónica segue caminho com a energia vibrante de O Pássaro de Fogo de Stravinski e o exótico Concerto para violino de Khachaturian, que traz pela primeira vez à Casa da Música o virtuoso violinista sérvio Nemanja Radulović. É ainda o nosso mais antigo agrupamento residente que nos leva ao coração da Europa de Leste com o poderoso Concerto para Orquestra de Bartók, a divertida Suite de Háry János de Kodály e a dançante Rapsódia Romena de Enescu.
No horizonte, o festival Tempo de Páscoa anuncia-se como um momento de pura elevação espiritual e celebração da luz. Abre com a dimensão mística de Wagner, através da Suite de Parsifal construída pelo maestro Andrew Gourlay, que também apresenta a obra num concerto comentado. O ápice da dimensão sacra chega na Quarta-feira Santa, com a interpretação da monumental Paixão segundo São João de Bach, num evento que reúne a Orquestra Barroca e o Coro Casa da Música sob a direção do francês Léo Warynski. Antes, o Remix Ensemble, em parceria com o Beyra – Laboratório Artístico, transmite a visão transcendente e colorida de Messiaen em Couleurs de la Cité Céleste, lado a lado com novas criações de compositores portugueses. A celebração da juventude e da renovação está a cargo da prodigiosa violinista Elli Choi, que interpreta o seu compositor preferido, Brahms, antes de a Sinfónica nos presentear com a Primeira Sinfonia de Chostakovitch.

O ciclo Café com Nata convida-nos a descobrir a versatilidade dos sopros da Sinfónica num ambiente descontraído. O Coro Casa da Música, sob a direção de Nils Schweckendiek, traça uma linhagem emocionante da tradição coral germânica, de Heinrich Isaac no século XV a Brahms, Schumann e Mahler. E o palco da Sala Suggia é sacralizado pela presença de uma lenda viva: o pianista Grigory Sokolov regressa com o seu recital anual, desta vez preenchido por obras de Beethoven e Schubert.
No vasto território da música popular e do jazz, março tem muito para oferecer. A música portuguesa celebra-se na sua diversidade – desde a história íntima contada no acordeão de Gabriel Gomes, passando pelas raízes telúricas da viola campaniça de Carlos Raposo em duo, até à fusão contemporânea e global do Expresso Transatlântico. Do Brasil, chega a força poética de Chico César, a reviver o álbum seminal Aos Vivos, e uma promessa firme da MPB: Leo Middea. O jazz mostra a sua vitalidade com o novo quinteto do contrabaixista Avishai Cohen e, num concerto da Geração Casa, expõe a criatividade da formação que venceu a última edição do Future Jazz. Por sua vez, a guitarra do lendário Lee Ritenour promete uma noite de puro virtuosismo e histórias partilhadas com amigos.
A vocação educativa e comunitária da Casa brilha com propostas dirigidas a todas as idades. Para os mais pequenos, as manhãs de domingo são preenchidas com a celebração sensorial de Som de Lá e de Cá e a viagem onírica de Cenas Infantis. Há ainda a oportunidade de descobrir a tradição coletiva do Gamelão indonésio ou de explorar a Magia do Som com instrumentos robóticos e construídos. Em plano de destaque, a primeira Maratona de Flautistas enche a Casa do som de jovens talentos e o projeto Vocal_Idade leva ao palco a energia transformadora de um coro sénior.
E porque a música é também território de pensamento e diálogo com o mundo, o mês reserva ainda momentos únicos de reflexão: o módulo do Curso Livre de História da Música sobre as “Joias Esquecidas da Música Clássica Portuguesa”, o concerto Tecno- Animismo da Digitópia, que questiona o sagrado na era digital, e até um talk-show científico e satírico sobre células estaminais.
Da introspeção à festa, da herança à vanguarda, celebre connosco o poder transformador da música e descubra nesta Partitura o caminho para a primavera.