Para Ler / 26 Novembro, 2025

As inúmeras formas da energia criadora

Entrevista a François Bou

François Bou, diretor artístico da Casa da Música, ajuda-nos a interpretar a programação da nova temporada e a descobrir nela os fundamentos da sua visão agregadora para o projeto. Uma Casa aberta às sinergias de todas as linguagens artísticas, em que a música é ao mesmo tempo “enraizada e universal”.

Raízes/Ressonâncias é o conceito-âncora da programação para 2026. Pode falar-nos um pouco sobre ele?

O ponto de partida foi a vontade de apresentar, pela primeira vez em Portugal, a integral das Bachianas Brasileiras de Heitor Villa-Lobos – uma obra que simboliza, de forma exemplar, o diálogo entre o erudito e o popular. Villa-Lobos inspirou-se em Bach, a quem ele via como um “universal brasileiro”, para unir a polifonia europeia à vitalidade rítmica e melódica das tradições populares do Brasil. Tudo começou com um verdadeiro coup de coeur pelas Bachianas Brasileiras. Toda a gente conhece a Quinta, mas as outras oito são pouco tocadas – e pensei: se esta é tão bela, as restantes também devem esconder tesouros. Depois, há em Villa-Lobos algo de essencial: a sua ligação ao rigor de escrita de Bach, que o inspira a unir a disciplina da forma à energia popular do Brasil. É uma ponte entre continentes e linguagens – e, naturalmente, entre Portugal e o Brasil. Esta escolha tem também um sentido estético. Enquanto, nos inícios do século XX, a Segunda Escola de Viena abria caminhos radicais e especulativos, outros compositores procuravam regenerar a música a partir das tradições populares – e dessa força nasceram obras como El sombrero de tres picos de Falla, Petruchka e O Pássaro de Fogo de Stravinski, o Concerto para Orquestra de Bartók, Háry János de Kodály, Taras Bulba de Janáček, até as Folk Songs de Berio. Todas estas obras estarão presentes ao longo da temporada, em diálogo com o universo de Villa-Lobos – que culminará com a sua monumental Floresta do Amazonas –, e até Brahms, Dvořák e Mahler, que também se inspiraram nas ressonâncias da música popular sem abandonarem a sua linguagem romântica, estarão lá como ecos dessa mesma energia criadora. No fundo, Villa-Lobos simboliza o que procuramos nesta temporada: uma música enraizada e universal ao mesmo tempo. A temporada de 2026 parte precisamente dessa tensão histórica: entre a necessidade de ultrapassar um passado romântico saturado e o desejo de reencontrar um sentido vital e orgânico da música. As Raízes são essa ligação profunda à memória coletiva; as Ressonâncias, o eco vivo dessa memória transformada em novas linguagens e novas formas de emoção. No fundo, o que propomos é uma escuta atenta das forças que alimentam a criação: perceber de onde vimos, o que nos move e como essas vibrações – antigas e novas – continuam a ressoar no mundo de hoje.

Tradicionalmente, a Casa da Música “enraizava” a programação de cada nova temporada num País-Tema. Com a sua chegada, isso acabou. Não há um paradoxo entre a ideia de “Raízes/Ressonâncias” e o que parece ser uma rutura estratégica?

Na verdade, não vejo aí uma rutura, mas sim uma continuidade ampliada. A ideia dos Países-Tema foi, durante muitos anos, extremamente fecunda: permitiu explorar identidades culturais e geográficas com profundidade e coerência. O que procuramos agora é alargar esse princípio – ir além das fronteiras nacionais e pensar em temas que atravessem diferentes geografias, épocas e linguagens. Raízes/Ressonâncias não se afasta dessa lógica de ligação à identidade; apenas a amplia. As raízes podem ser culturais, populares, espirituais ou estéticas – e as suas ressonâncias encontram- se em toda a parte. Ao invés de nos concentrarmos num único território, procuramos compreender como essas raízes – incluindo as da música popular – se transformam, se cruzam e inspiram novas criações. Este conceito permite-nos pôr em diálogo universos que raramente se encontram: Villa-Lobos com Bartók, de Falla com Bach, a música erudita com a música popular, o património com a invenção contemporânea. É uma visão transversal, inclusiva, que reflete a própria identidade da Casa da Música – um lugar onde todas as linguagens podem conviver.

O conceito de “ressonância” também pode ser entendido como eco, vibração. Já definiu os “ecos” que gostaria de provocar este ano, dentro e fora de portas, ou prefere que eles se revelem naturalmente, fruto do diálogo entre as raízes e a inovação?

Prefiro falar de ressonância e não de eco, porque a ressonância implica uma relação viva, dinâmica, transformadora – não é apenas a repetição de um som, mas a forma como uma vibração inicial encontra outro corpo e o faz vibrar de maneira diferente. É exatamente isso que procuramos na programação de 2026: ressonâncias entre as obras dentro de cada concerto, entre os diferentes programas, ciclos e festivais, mas também entre os nossos agrupamentos, os públicos, os artistas convidados e a própria Casa da Música enquanto instituição cultural. Essas ressonâncias estendem- se ainda para fora de portas – aos parceiros externos, às escolas, às comunidades e à sociedade em geral. Mais do que planear “ecos”, queremos provocar ressonâncias autênticas – que ressoam na maneira de viver a Casa da Música, como uma vibração que continua a existir muito depois de a música ter terminado.

Que outros conceitos novos apresenta e por que sentiu necessidade de os implementar?

Mais do que criar novos formatos, quis propor uma forma de pensar a Casa da Música como um todo. O objetivo é reforçar o diálogo entre todos os seus mundos – os agrupamentos residentes, a criação contemporânea, a música popular, o jazz, a educação e a relação com a sociedade. Um conceito essencial é o da transversalidade: a ideia de que tudo comunica. Não há fronteiras fixas entre o erudito e o popular, entre o concerto e o projeto educativo, entre o palco e o espaço digital. Cada gesto artístico pode gerar ressonâncias nas outras áreas, tornando a Casa um organismo vivo e coerente. Senti necessidade de implementar esta visão porque acredito que a Casa da Música deve ser mais do que uma soma de programações – deve ser um espaço de partilha e de transformação, onde Educação, Criação e Sociedade se unem numa mesma energia criadora. É a isso que chamo “Viver a Casa”: uma maneira de habitar este lugar, onde o público, os artistas e a própria instituição respiram juntos o mesmo impulso de descoberta e de criação.

Dois elementos estruturantes da programação são os ciclos e os festivais. Como é que eles se distinguem e o que de mais sugestivo nos vão trazer ao longo do ano?

Os ciclos são momentos de escuta e de reflexão mais prolongada – permitem acompanhar o pensamento de um compositor ou uma ideia musical ao longo do tempo. Em 2026, vamos mergulhar nos universos de Villa-Lobos, Bach, Brahms e Hèctor Parra, quatro visões da música que, cada uma à sua maneira, exploram a relação entre tradição e modernidade. Todos estes ciclos estão em ressonância com a temática central do ano – Raízes/Ressonâncias – , que propõe olhar para as origens e perceber como elas continuam a inspirar o presente. Os ciclos estendem-se também ao universo audiovisual, com o Grande Ecrã, em cine-concertos e concertos com ecrã que reforçam a ligação entre som e imagem e oferecem novas formas de escuta e de experiência artística. Os festivais, por sua vez, representam o lado mais vibrante e partilhado da Casa – momentos de programação intensiva que, durante um período concentrado, mobilizam os Agrupamentos Residentes, o Serviço Educativo, a criação, a música popular e a mediação em torno de um tema artístico comum. São tempos de encontro e de celebração que dão ritmo à programação, criando pulsações ao longo do ano que fazem a Casa da Música respirar em movimento. Em 2026 teremos Ressonâncias, Tempo de Páscoa, Dias da Guitarra, Echo Rising Stars, Tempo de Verão, Press Start, Estação Jazz, Tempo de Encontros, Amazónia e Tempo de Natal – todos em diálogo direto com as ideias de raízes e ressonâncias, entre herança e criação. Cada festival transforma a Casa da Música num centro cultural vivo, onde o público circula entre salas e espaços informais, podendo viver a Casa como espetador, participante ou explorador. No fundo, é isso que procuramos: que cada ciclo e cada festival marquem o pulso de uma temporada que se escuta, se celebra e se partilha – uma forma de viver intensamente a Casa da Música.

No capítulo das residências artísticas, há também novidades a assinalar. Até aqui, o Compositor em Residência era escolhido para uma temporada, mas, pela primeira vez, o catalão Hèctor Parra vai assumir o papel durante dois anos. Inédita é também a atribuição de uma residência a um artista de outra área que não a música – no caso, a brasileira Bianca Dacosta. O que devemos ler nestas reformulações e como se integram as referidas escolhas na programação?

Acredito que um ano de residência é insuficiente para criar um verdadeiro vínculo com a Casa da Música. Um compositor em residência precisa de tempo para se integrar na vida da instituição, conhecer os músicos, as equipas, o público, mas também participar no tecido cultural da cidade, dar masterclasses, inspirar outros artistas. Tudo isso exige continuidade – é um processo de maturação que só faz sentido na duração. Por isso, a presença de Hèctor Parra durante dois anos é uma escolha natural. Ele é um compositor de grande profundidade e imaginação, e este tempo alargado vai permitir que a sua música ressoe em vários contextos: sinfónico, de câmara, educativo e até digital. Quanto a Bianca Dacosta, acho natural que uma artista visual se associe a produções musicais – sobretudo num edifício tão icónico como a Casa da Música, onde o espaço, a luz e o som dialogam constantemente. A sua presença vai permitir cruzar linguagens e públicos, criando novas formas de olhar e de escutar. Tal como Hèctor Parra, Bianca Dacosta também participará na vida cultural do Porto, em encontros com o público e com a comunidade artística local. Ambos representam aquilo que procuramos: artistas que vivem a Casa e fazem a Casa viver.

A programação percorre muitos territórios: do barroco ao jazz, do fado à música eletrónica. Que importância tem a mistura de linguagens no seu projeto curatorial?

Mais do que uma mistura, é uma agregação em torno de um mesmo projeto. Todas as estéticas entram em ressonância – é algo natural para mim. O barroco, o jazz, o fado ou a eletrónica não são mundos separados, mas diferentes formas de uma mesma energia criadora. No fundo, essa diversidade não é um acaso: é a assinatura da Casa da Música.

A sua direção inclui também o Serviço Educativo. De que forma esta área se articula com a ideia de raízes e ressonâncias? E, trabalhando com públicos tão diversos – crianças, famílias, seniores, pessoas com necessidades especiais –, que dimensão de inclusão procura reforçar?

O eixo educativo é central e transversal à programação, e por isso os concertos para famílias e para diferentes comunidades passam agora a integrar a brochura da temporada. Muitas das nossas propostas dialogam diretamente com os temas do ano, refletindo a ideia de raízes e ressonâncias também no plano pedagógico. Trabalhamos com públicos muito variados, e o objetivo é reforçar uma Casa da Música verdadeiramente inclusiva e próxima. Para isso, criámos formatos de encontro – prelúdios musicais, conversas e encontros no final dos concertos, bem como momentos conviviais como o Café com Nata – que aproximam artistas, música e público de forma natural e acessível.

De um modo análogo, a temporada envolve artistas e projetos de várias geografias – da América Latina à Europa de Leste, da Ásia à África lusófona. É a afirmação de uma Casa cada vez mais global?

Sem dúvida. A música é universal na sua diversidade, e os artistas também. A arte fala da poesia da alma do Mundo. Abertura ao mundo faz parte da identidade da Casa da Música. Mas, falando de raízes, é igualmente importante afirmar uma forte presença de artistas portugueses, valorizando a criação que nasce aqui e dialoga com o que chega de fora. Esta combinação – enraizamento local e horizonte global – é essencial para o projeto artístico que queremos construir.