Para Ler / 19 Dezembro, 2025

As inúmeras formas da energia criadora 

Abertura

François Bou, diretor artístico da Casa da Música, ajuda-nos a interpretar a programação da nova temporada e a descobrir nela os fundamentos da sua visão agregadora para o projeto. Uma Casa aberta às sinergias de todas as linguagens artísticas, em que a música é ao mesmo tempo “enraizada e universal”. 

Raízes/Ressonâncias” é o conceito-âncora da programação para 2026. Pode falar-nos um pouco sobre ele?  
O ponto de partida foi a vontade de apresentar, pela primeira vez em Portugal, a integral das Bachianas Brasileiras de Heitor Villa-Lobos – uma obra que simboliza, de forma exemplar, o diálogo entre o erudito e o popular. Villa-Lobos inspirou-se em Bach, a quem ele via como um “universal brasileiro”, para unir a polifonia europeia à vitalidade rítmica e melódica das tradições populares do Brasil. Tudo começou com um verdadeiro coup de cœur pelas Bachianas Brasileiras. Toda a gente conhece a Quinta, mas as outras oito são pouco tocadas – e pensei: se esta é tão bela, as restantes também devem esconder tesouros. Depois, há em Villa-Lobos algo de essencial: a sua ligação ao rigor de escrita de Bach, que o inspira a unir a disciplina da forma à energia popular do Brasil. É uma ponte entre continentes e linguagens – e, naturalmente, entre Portugal e o Brasil. Esta escolha tem também um sentido estético. Enquanto, nos inícios do século XX, a Segunda Escola de Viena abria caminhos radicais e especulativos, outros compositores procuravam regenerar a música a partir das tradições populares – e dessa força nasceram obras como El sombrero de tres picos de Falla, Petrushka e O Pássaro de Fogo de Stravinski, o Concerto para Orquestra de Bartók, Háry János de Kodály, Taras Bulba de Janáček… Todas estas obras estarão presentes ao longo da temporada, em diálogo com o universo de Villa-Lobos – que culminará com a sua monumental Floresta do Amazonas –, e até Brahms, Dvořák e Mahler, que também se inspiraram nas ressonâncias da música popular sem abandonarem a sua linguagem romântica, estarão lá como ecos dessa mesma energia criadora. No fundo, Villa-Lobos simboliza o que procuramos nesta temporada: uma música enraizada e universal ao mesmo tempo. A temporada de 2026 parte precisamente dessa tensão histórica: entre a necessidade de ultrapassar um passado romântico saturado e o desejo de reencontrar um sentido vital e orgânico da música. As Raízes são essa ligação profunda à memória coletiva; as Ressonâncias, o eco vivo dessa memória transformada em novas linguagens e novas formas de emoção. No fundo, o que propomos é uma escuta atenta das forças que alimentam a criação: perceber de onde vimos, o que nos move e como essas vibrações – antigas e novas – continuam a ressoar no mundo de hoje.  

Tradicionalmente, a Casa da Música “enraizava” a programação de cada nova temporada num País-Tema. Com a sua chegada, isso acabou. Não há um paradoxo entre a ideia de “Raízes/Ressonâncias” e o que parece ser uma rutura estratégica?  
Na verdade, não vejo aí uma rutura, mas sim uma continuidade ampliada. A ideia dos Países-Tema foi, durante muitos anos, extremamente fecunda: permitiu explorar identidades culturais e geográficas com profundidade e coerência. O que procuramos agora é alargar esse princípio – ir além das fronteiras nacionais e pensar em temas que atravessem diferentes geografias, épocas e linguagens. “Raízes/Ressonâncias” não se afasta dessa lógica de ligação à identidade; apenas a amplia. As raízes podem ser culturais, populares, espirituais ou estéticas – e as suas ressonâncias encontram-se em toda a parte. Ao invés de nos concentrarmos num único território, procuramos compreender como essas raízes – incluindo as da música popular – se transformam, se cruzam e inspiram novas criações. Este conceito permite-nos pôr em diálogo universos que raramente se encontram: Villa-Lobos com Bartók, de Falla com Bach, a música erudita com a música popular, o património com a invenção contemporânea. É uma visão transversal, inclusiva, que reflete a própria identidade da Casa da Música – um lugar onde todas as linguagens podem conviver.  

O conceito de “ressonância” também pode ser entendido como eco, vibração. Já definiu os “ecos” que gostaria de provocar este ano, dentro e fora de portas, ou prefere que eles se revelem naturalmente, fruto do diálogo entre as raízes e a inovação?  
Prefiro falar de ressonância e não de eco, porque a ressonância implica uma relação viva, dinâmica, transformadora – não é apenas a repetição de um som, mas a forma como uma vibração inicial encontra outro corpo e o faz vibrar de maneira diferente. É exatamente isso que procuramos na programação de 2026: ressonâncias entre as obras dentro de cada concerto, entre os diferentes programas, ciclos e festivais, mas também entre os nossos agrupamentos, os públicos, os artistas convidados e a própria Casa da Música enquanto instituição cultural. Essas ressonâncias estendem-se ainda para fora de portas – aos parceiros externos, às escolas, às comunidades e à sociedade em geral. Mais do que planear “ecos”, queremos provocar ressonâncias autênticas – que ressoam na maneira de viver a Casa da Música, como uma vibração que continua a existir muito depois de a música ter terminado.  

Que outros conceitos novos apresenta e por que sentiu necessidade de os implementar?  
Mais do que criar novos formatos, quis propor uma forma de pensar a Casa da Música como um todo. O objetivo é reforçar o diálogo entre todos os seus mundos – os agrupamentos residentes, a criação contemporânea, a música popular, o jazz, a educação e a relação com a sociedade. Um conceito essencial é o da transversalidade: a ideia de que tudo comunica. Não há fronteiras fixas entre o erudito e o popular, entre o concerto e o projeto educativo, entre o palco e o espaço digital. Cada gesto artístico pode gerar ressonâncias nas outras áreas, tornando a Casa um organismo vivo e coerente. Senti necessidade de implementar esta visão porque acredito que a Casa da Música deve ser mais do que uma soma de programações – deve ser um espaço de partilha e de transformação, onde Educação, Criação e Sociedade se unem numa mesma energia criadora. É a isso que chamo “Viver a Casa”: uma maneira de habitar este lugar, onde o público, os artistas e a própria instituição respiram juntos o mesmo impulso de descoberta e de criação.  

Dois elementos estruturantes da programação são os ciclos e os festivais. Como é que eles se distinguem e o que de mais sugestivo nos vão trazer ao longo do ano?  
Os ciclos são momentos de escuta e de reflexão mais prolongada – permitem acompanhar o pensamento de um compositor ou de uma ideia musical ao longo do tempo. Em 2026, vamos mergulhar nos universos de Villa-Lobos, Bach, Brahms e Hèctor Parra, quatro visões da música que, cada uma à sua maneira, exploram a relação entre tradição e modernidade. Todos estes ciclos estão em ressonância com a temática central do ano – “Raízes/Ressonâncias” –, que propõe olhar para as origens e perceber como elas continuam a inspirar o presente. Os ciclos estendem-se também ao universo audiovisual, com o Grande Ecrã, em cine-concertos e concertos com ecrã que reforçam a ligação entre som e imagem e oferecem novas formas de escuta e de experiência artística. Os festivais, por sua vez, representam o lado mais vibrante e partilhado da Casa – momentos de programação intensiva que, durante um período concentrado, mobilizam os Agrupamentos Residentes, o Serviço Educativo, a criação, a música popular e a mediação em torno de um tema artístico comum. São tempos de encontro e de celebração que dão ritmo à programação, criando pulsações ao longo do ano que fazem a Casa da Música respirar em movimento. Em 2026 teremos Ressonâncias, Tempo de Páscoa, Dias da Guitarra, Echo Rising Stars, Tempo de Verão, Press Start, Estação Jazz, Tempo de Encontros, Amazónia e Tempo de Natal – todos em diálogo direto com as ideias de raízes e ressonâncias, entre herança e criação. Cada festival transforma a Casa da Música num centro cultural vivo, onde o público circula entre salas e espaços informais, podendo viver a Casa como espetador, participante ou explorador. No fundo, é isso que procuramos: que cada ciclo e cada festival marquem o pulso de uma temporada que se escuta, se celebra e se partilha – uma forma de viver intensamente a Casa da Música.  

No capítulo das residências artísticas, há também novidades a assinalar. Até aqui, o Compositor em Residência era escolhido para uma temporada, mas, pela primeira vez, o catalão Hèctor Parra vai assumir o papel durante dois anos. Inédita é também a atribuição de uma residência a um artista de outra área que não a música – no caso, a brasileira Bianca Dacosta. O que devemos ler nestas reformulações e como se integram as referidas escolhas na programação?  
Acredito que um ano de residência é insuficiente para criar um verdadeiro vínculo com a Casa da Música. Um compositor em residência precisa de tempo para se integrar na vida da instituição, conhecer os músicos, as equipas, o público, mas também participar no tecido cultural da cidade, dar masterclasses, inspirar outros artistas. Tudo isso exige continuidade – é um processo de maturação que só faz sentido na duração. Por isso, a presença de Hèctor Parra durante dois anos é uma escolha natural. Ele é um compositor de grande profundidade e imaginação, e este tempo alargado vai permitir que a sua música ressoe em vários contextos: sinfónico, de câmara, educativo e até digital. Quanto a Bianca Dacosta, acho natural que uma artista visual se associe a produções musicais – sobretudo num edifício tão icónico como a Casa da Música, onde o espaço, a luz e o som dialogam constantemente. A sua presença vai permitir cruzar linguagens e públicos, criando novas formas de olhar e de escutar. Tal como Hèctor Parra, Bianca Dacosta também participará na vida cultural do Porto, em encontros com o público e com a comunidade artística local. Ambos representam aquilo que procuramos: artistas que vivem a Casa e fazem a Casa viver.   

A programação percorre muitos territórios: do barroco ao jazz, do fado à música eletrónica. Que importância tem a mistura de linguagens no seu projeto curatorial?  
Mais do que uma mistura, é uma agregação em torno de um mesmo projeto. Todas as estéticas entram em ressonância – é algo natural para mim. O barroco, o jazz, o fado ou a eletrónica não são mundos separados, mas diferentes formas de uma mesma energia criadora. No fundo, essa diversidade não é um acaso: é a assinatura da Casa da Música.  

A sua direção inclui também o Serviço Educativo. De que forma esta área se articula com a ideia de raízes e ressonâncias? E, trabalhando com públicos tão diversos – crianças, famílias, seniores, pessoas com necessidades especiais –, que dimensão de inclusão procura reforçar?  
O projeto educativo é central e transversal à programação, e por isso os concertos para famílias e para diferentes comunidades passam agora a integrar a brochura da temporada. Muitas das nossas propostas dialogam diretamente com os temas do ano, refletindo a ideia de raízes e ressonâncias também no plano pedagógico. Trabalhamos com públicos muito variados, e o objetivo é reforçar uma Casa da Música verdadeiramente inclusiva e próxima. Para isso, criámos formatos de encontro – prelúdios musicais, conversas e encontros no final dos concertos, bem como momentos conviviais como o Café com Nata – que aproximam artistas, música e público de forma natural e acessível.  

De um modo análogo, a temporada envolve artistas e projetos de várias geografias – da América Latina à Europa de Leste, da Ásia à África lusófona. É a afirmação de uma Casa cada vez mais global?  
Sem dúvida. A música é universal na sua diversidade, e os artistas também. A arte fala da poesia da alma do Mundo. Abertura ao mundo faz parte da identidade da Casa da Música. Mas, falando de raízes, é igualmente importante afirmar uma forte presença de artistas portugueses, valorizando a criação que nasce aqui e dialoga com o que chega de fora. Esta combinação – enraizamento local e horizonte global – é essencial para o projeto artístico que queremos construir.