Para Ler Para ver e ouvir / 15 Abril, 2026

Da Rua, com Amor

Som da Rua na Casa, 21 de maio

Os ensaios realizam-se dentro de uma sala do Centro Porta Amiga da AMI, em Campanhã. À chegada, todos se felicitam, há pequenas brincadeiras avulsas e outros gestos dispersos que inscrevem cada reencontro na dimensão comunitária de um ritual. Um ritual de reconhecimento. De reconhecimento entre iguais, como explica Jorge Prendas, diretor artístico do projeto e coordenador do Serviço Educativo da Casa da Música, que o leva a cabo desde 2009, em parceria com a Liga Para a Inclusão Social: “O Som da Rua é um Porto aberto a todos. E é um espaço de inclusão, onde o facto de se ser músico profissional, amador, técnico da área social ou uma pessoa num momento de vida difícil não conta. Conta, sim, o grupo”.

A periodicidade semanal dos ensaios contribui também para que este seja percebido por todos como um Porto seguro, algo de especial importância na mente de quem vive pele-a-pele com a insegurança das ruas, o que é o caso de muitos. A pertença joga aqui um papel determinante, redespertando em cada espírito o valor da responsabilidade, da pontualidade, do compromisso. É, para cada participante, um momento de recontextualização pessoal, nos antípodas da indiferença que tanto empalidece o seu quotidiano. E há magia nisto, como em quase tudo onde a música aparece: durante uma hora e meia, o dó transforma-se em sol. E o sol brilha mesmo para todos.

Os olhos de Anabela Silva são um espelho disso. “Adoro vir para cá. Sinto-me bem com pessoas fragilizadas, porque o ser humano tem de ter a capacidade de se pôr na pele do outro. As pessoas estão muito egoístas, só sabem olhar para si próprias. Viram a cara para o lado quando passam por um sem-abrigo porque têm medo de um dia estar nessa situação”. Ela fala de experiência, não de leitura. Sobre o fio da navalha é ela quem escreve com autoridade. E candura. Já publicou três livros de poesia, apesar dos pesares, por vezes tão intensos e persistentes como as nuvens deste último inverno. Mas a música, a música… “Eu punha-me a ouvir certas músicas e a chorar e a escrever. Era uma maneira de deitar para fora o que se passava na minha alma”, conta. A sua vocalidade – “adoro cantar, adoro o palco”, dir-se-ia que adora tudo o que a expanda – torna-a, se não protagonista, porque essa é uma condição do coletivo, um elemento facilitador da comunicação e uma fonte incessante de voluntariado.

Os instrumentos desta inusitada orquestra são também eles inusitados, conformando a realidade do Som da Rua à Lei de Lavoisier, segundo a qual “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Ou recicla. Há garrafas de plástico cortadas às tirinhas para imitar o som da chuva, há garrafas com água e pedrinhas dentro que replicam o barulho do mar, há reco-recos feitos de tubos anelados para proteção de obras elétricas e percutidos por pauzinhos de sushi do Restaurante Casa da Música, há chocalhos construídos com tampas de refrigerante, há garrafões de vinho como bombos. Só não há bombas, embora a criatividade seja bombástica. Mas ao serviço da paz.

Francisco Daniel, um membro recente, chegou encaminhado pela ULS de Entre Douro e Vouga, em São João da Madeira. “Não tinha nada para fazer e indicaram-me esta atividade. É uma coisa que me deixa feliz, que me dá alegria. Gosto da música, dos instrumentos, de comunicar, de conhecer pessoas novas. Sinto-me bem, aqui. E quero brilhar no palco, não ter vergonha de lá estar”, confessa. Já Joaquim Oliveira, mais velho e acostumado a estas andanças, projeta uma confiança inabalável, quando instado a antecipar o concerto de dia 21 de maio na Casa da Música. “Toda a gente quer dar o seu melhor e a equipa está muito unida. A convivência é excecional e aqui ninguém gagueja, estamos todos afinados. Eu olho para os meus colegas e posso garantir: eles vão encarar o palco com muita naturalidade. É ali que vamos saber quem somos. É um dia maiúsculo”, define.

Na sala de ensaios, há de facto uma química de grupo que, não escondendo diferenças individuais de personalidade, coloca todos, músicos e não músicos, em pé de igualdade. Os profissionais do Serviço Educativo são catalisadores do talento, da criatividade e da paixão dos participantes, que respondem entusiasticamente às indicações e encaixam com gratidão qualquer conselho ou reparo. Uma após outra, as canções saem do papel afixado numa coluna da sala para percorrer a coluna erguida de cada membro do Som da Rua. As vozes crescem como flores num jardim primaveril, sem a sombra das tristezas e mágoas vividas a toldá-las. Pelo contrário: faz-se dessas contingências matéria-prima para a criação. Canta-se a cidade que nos une, este Porto anguloso que não merece ter esquinas escondidas. E a garganta de cada um faz-se pincel na criação de um quadro comum.

Enquanto não chega o momento de o desvelarem perante nós, afinemos nós o espírito com a desarmante franqueza de um poema de Anabela Silva, intitulado “Sem-abrigo”:

Quando por mim passas na rua
E viras a cara para o lado
Lembra-te que também eu já fui feliz
Também eu já fui amado
Hoje minha casa é a rua
Meu teto o céu estrelado
E nas pedras da calçada durmo
Quando me sinto cansado
E quando a solidão da noite chega
Choro com saudades do passado
Passado com pai, mãe e filhos
Hoje sou ignorado
Por isso quando por mim passas na rua
E te estendo a minha mão
É à espera de um pouco de carinho
Um pouco da tua atenção
Para me ajudares a esquecer
Um pouco desta minha solidão.