Para Ler / 13 Março, 2026

Abril, teclas mil

As teclas ecoam por todos os espaços da Casa, lembrando-nos como um só instrumento pode conter mundos inteiros. 

Depois do equinócio, os dias alongam-se e a programação floresce num desenho que cruza o sagrado e o terreno, o virtuosismo e a comunidade, a memória e a invenção. Mas há um fio condutor que atravessa todo o mês, uma presença que se impõe pela diversidade de vozes e universos: o piano. Seja no registo intimista da canção de câmara, na dimensão colossal do concerto sinfónico ou na eletricidade do jazz, as teclas ecoam por todos os espaços da Casa, lembrando-nos como um só instrumento pode conter mundos inteiros.

A peregrinação pianística começa com o alemão Joseph Moog, uma estrela de intenso brilho no panorama internacional, a interpretar o monumental Concerto n.º 1 de Brahms com a Orquestra Sinfónica. Ao seu lado, Stefan Blunier dirige a Sinfonia n.º 2 de Beethoven – essa obra enganadoramente luminosa, escrita no silêncio ameaçador da surdez. Poucos dias depois, é a vez do ucraniano Vadym Kholodenko habitar o centro do palco da Sala Suggia. Vencedor do Concurso Van Cliburn, Kholodenko oferece-nos um recital de transcendência rara: a densidade espiritual do Requiem de Mozart vertido para piano e a pirotecnia romântica da Sinfonia Fantástica de Berlioz na transcrição de Liszt. Na mesma semana, Martin Helmchen junta-se à Sinfónica para o derradeiro desafio brahmsiano: o Concerto n.º 2, obra de escrita colossal onde o intimismo e a epopeia se entrelaçam. No programa, ainda as Danças Húngaras e uma incursão em Schoenberg – prova de que a tradição germânica nunca foi um museu, mas um organismo vivo. E, a fechar o mês em beleza, o arménio Tigran Hamasyan cruza o jazz, o rock progressivo e a música folclórica do Cáucaso num concerto que promete ser dos mais arrebatadores da temporada. Com ele, o piano deixa de ser apenas piano: é tambor, é coro, é respiração ancestral.

Mas abril é também o mês em que a Páscoa ilumina a programação com obras de inigualável força espiritual. A dois dias da Sexta-Feira Santa, a Paixão segundo São João de Bach ganha vida pela mão do maestro francês Léo Warynski, num evento que reúne a Orquestra Barroca e o Coro Casa da Música. A dor, o sofrimento e a redenção do Evangelho segundo João encontram na música de Bach um dos seus mais altos cumes. E, num contraponto surpreendente, o coletivo Digitópia propõe uma reflexão sobre o sagrado na era digital com o concerto Tecno-animismo, que questiona a alma das máquinas e a fé que nelas depositamos.

A Orquestra Sinfónica mantém-se como pilar central da programação. Depois do díptico Brahms/Beethoven, é a vez de Michael Sanderling dirigir dois programas complementares. Primeiro, os dilacerantes Kindertotenlieder de Mahler, com a meio-soprano alemã Christel Loetzsch, seguidos da Sinfonia n.º 1 de Bruckner – essa sonoridade catedralícia que transporta o ouvinte para outro plano. Depois, num concerto comentado, o mesmo maestro regressa para mergulhar mais fundo na obra de Bruckner, desvendando os segredos dessa estreia em Linz que há mais de um século e meio mudou a história da sinfonia.

A música de câmara ocupa lugares distintos. No Salão Árabe do Palácio da Bolsa, os Solistas da Sinfónica evocam o universo de Boccherini e Haydn – uma oportunidade única para ouvir os clássicos na intimidade de um dos espaços mais belos da cidade. O ciclo Café com Nata regressa com um programa raro: o Trio op. 40 de Brahms, escrito na Floresta Negra sob o signo da trompa e da luz matinal, ao lado de peças de Koechlin e Robert Kahn. E, no âmbito do Festival Projeto: Canção, a soprano Sophia Burgos e o pianista Daniel Arkadij Gerzenberg exploram os temas da imigração e do refúgio através da canção de câmara contemporânea.

A música portuguesa tem palco em múltiplas geografias. Tito Paris apresenta o novo álbum Quem está aí?, numa celebração da lusofonia que cruza Cabo Verde, Brasil, Angola e Portugal. Zeca Medeiros assinala o 25 de Abril com canções de intervenção e um imaginário atlântico que é só seu. E os Mão Verde, depois de uma década de concertos para “verdes e maduros”, trazem novas canções que falam de ecologia, igualdade e liberdade – porque o futuro é das crianças e elas estão convidadas a (re)pensar o mundo.

O jazz e a world music ocupam o seu espaço natural. A Orquestra Jazz de Matosinhos recebe a mexicana Fuensanta, que cruza o folclore de Veracruz com a improvisação livre num programa desenhado para big band. Os Tinariwen, lendas do “blues do deserto”, trazem a causa tuaregue e o novo álbum The Hoggar a palco. E, da Suíça, os Black Sea Dahu oferecem uma música crua e cinematográfica, feita para conectar e sobreviver em tempos de ruído.

A formação de novas gerações é presença constante. O Prémio Jovens Músicos traz-nos o trompista Telmo Rocha, laureado do nível superior. O Future Rocks continua a revelar bandas emergentes. E o ciclo Geração Casa ocupa o Café com propostas tão diversas como a folk idiossincrática de ÉME, o cancioneiro contemporâneo de Miguel Marôco ou as canções delicadas de Francisco Fontes. A abrir o mês, o projeto comunitário As Nossas Raízes junta formandos e pessoas com necessidades especiais num concerto que é, acima de tudo, uma celebração da escuta e da colaboração.

Para os mais novos, a oferta é abundante. O Som de Lá e de Cá regressa às manhãs de domingo. O espetáculo Uirapuru, inspirado na Amazónia e em Villa-Lobos, promete encantar com dança e música. E a oficina Voar muito perto do Sol cruza artes performativas e visuais a partir de um texto do modernista vienense Adolf Loos. Para os mais velhos (e para todos os que gostam de pensar a rir), Mário João Alves regressa com Duvidismos e Relativências de Einstein, um concerto-espetáculo sobre a relatividade das coisas, com ciência, violino e muito humor.

Abril é também tempo de pensar o futuro da música. O PEMS, encontro de música e tecnologia, celebra a sua quarta edição com o tema “Technology as Possibility: Music in the Age of Infinite Choice”. Conferências, workshops, mesas-redondas e concertos exploram o papel da tecnologia não como ferramenta, mas como horizonte de possibilidades criativas, estéticas e éticas. Em cada tecla deste mês há um mundo à espera de ser descoberto. Folhear a Partitura é sempre o melhor começo.