A Música que Abre as Cortinas
É com o génio de Chaplin que a Casa da Música dá início ao ciclo O Grande Ecrã, que pretende explorar as ligações entre a música e o cinema, ou a imagem em movimento, cruzando-os de formas diversas e criativas, seja dentro de modelos mais convencionais, como o cine-concerto, seja testando novas possibilidades. É um campo aberto de experimentação e contaminação artística, onde não apenas as raízes do cinema ressoam no tempo presente através do encontro com a música, como tesouros musicais antes confinados ao seu elemento descobrem os caminhos expressivos que a tela lhes proporciona – e muito mais pelo meio.
Na medida em que entre as linguagens da arte não se justificam fronteiras baseadas em supremacismos, preconceitos e discriminações, poucas obras cinematográficas poderiam inaugurar tão eloquente e simbolicamente o nosso ciclo como O Grande Ditador, o primeiro filme falado de Charlie Chaplin, um ato de coragem política e artística sem precedentes, em defesa da liberdade de ser, pensar e criar, contra o despotismo, o totalitarismo, a arbitrariedade tirânica.
O grande mestre do burlesco desafiou lobbies poderosos, tentativas de boicote e pressões do seu próprio estúdio para que a fita pudesse ser estreada, em outubro de 1940, quando os horrores do regime nazi já eram conhecidos e a Europa ardia sob a guerra, embora os EUA ainda se mantivessem oficialmente neutros. Foi uma verdadeira pedrada no charco, uma “bomba (a)cómica” apontada pela figura mais amada do cinema mundial a Adolf Hitler e à mecânica do fascismo. Investindo-se de corpo e alma na dimensão política do filme, Chaplin não apenas se divide em dois para interpretar os “opostos simbólicos” do conflito – o lunático ditador Adenoid Hynkel (a referência não podia ser mais explícita) e um humilde e anónimo barbeiro judeu – como, no fim, abandona a própria trincheira do cinema, derrubando a quarta parede para abordar o público, olhos nos olhos, com um discurso humanista que se tornaria o coração moral do filme e o elemento nuclear – aqui, não no sentido bélico – de uma das cenas mais icónicas da história da sétima arte.
Génio incomparável de talento transbordante, cuja personagem de Charlot – o hilariante vagabundo de chapéu de coco, bengala, bigode estreito, fraque preto coçado e sapatos acima do número – atravessou já mais de um século sem perder a capacidade de provocar gargalhadas e assomos de ternura em todas as audiências do mundo, Chaplin notabilizou-se nas mais variadas dimensões do cinema, mas também fez história enquanto músico.
Exemplo disso é justamente a autoria da banda sonora de O Grande Ditador, que a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música interpreta ao vivo, no concerto de abertura deste ciclo (dia 6 de fevereiro), em simultâneo com a projeção do filme. Responsável pela recuperação de partituras originais do cineasta britânico, o maestro norte-americano Timothy Brock dirige o nosso agrupamento residente.
Estreado há 100 anos, Metropolis é ainda hoje um objeto de culto, visto como um dos grandes expoentes do expressionismo alemão.
Ao longo do ano, outros cruzamentos marcantes entre a música e o cinema estão agendados, esperando o seu encontro com o público. Em junho, a Orquestra Barroca é convocada a acompanhar ao vivo a exibição de Farinelli (1994), o biopic realizado por Gérard Corbiau do castrato que se tornou a voz mais célebre e desejada na Europa do século XVIII. Vencedor do Globo de Ouro para Melhor Filme Estrangeiro e indicado ao Óscar na mesma categoria, é um drama barroco sobre o sacrifício em nome da arte perfeita e a fragilidade por trás de uma fama quase divina. A relação a um tempo simbiótica e destrutiva entre Farinelli e o seu irmão, o compositor Ricardo Broschi, tensiona a narrativa do filme, que acompanha a ascensão meteórica do cantor, dos teatros de Nápoles ao apogeu como “divo” na corte de Espanha, onde a sua voz era requisitada enquanto remédio para a melancolia do rei. Sob a direção do maestro e violinista Huw Daniel, será escutada a banda sonora original da fita, integralmente preenchida por música do período Barroco.

Em setembro, chega uma das últimas obras-primas do cinema mudo: Metropolis, de Fritz Lang. Estreado há 100 anos, é ainda hoje um objeto de culto, tido como um dos grandes expoentes do expressionismo alemão. Um pesadelo alegórico em preto, branco e prata, projetando de forma presciente para 2026, ano daquele futuro imaginado, os medos da modernidade industrial. Embora tenha nascido muda, esta ópera visual arrebatadora sobre os excessos da civilização não foi concebida para ser vista em silêncio. Originalmente, a sua exibição era acompanhada pela interpretação ao vivo de uma partitura de Gottfried Huppertz, tendo, ao longo dos anos, sido escritas mais de duas dezenas de bandas sonoras para o filme. Em 1995, o compositor argentino Martin Matalon assinou aquela que ocupará as estantes do Remix Ensemble, na tarde-noite deste cine-concerto.
Mas, como referido, outros formatos são também contemplados pelo ciclo O Grande Ecrã. A Orquestra Sinfónica está presente em três deles, já no derradeiro trimestre de 2026: Retro Gaming Sinfónico, um concerto preenchido por música de videojogos que marcaram, sobretudo, as duas últimas décadas do século XX; um dos momentos altos da Temporada, com a apresentação da criação visual de Bianca Dacosta, Artista em Residência 2026 na Casa da Música, para a epopeia musical Floresta do Amazonas, de Heitor Villa-Lobos; e a revisitação do bailado O Quebra-Nozes, de Tchaikovski, em simultâneo com uma performance ao vivo de animação de areia pela artista plástica ucraniana Kseniya Simonova.
Também o Serviço Educativo participa neste ciclo, com um par de propostas especiais: Sussurros do Mar, espetáculo inspirado na música de Debussy, onde dois pianistas tocam dentro de um cubo gigante em cujas paredes se projetam vídeos que recriam um mundo subaquático, e O Último Canto dos Pássaros, projeto construído a partir de gravações reais de aves de todo o mundo, com sons eletrónicos e elementos visuais da autoria de Bianca Dacosta.
Por enquanto, há que calibrar o espírito para tantas experiências a caminho. Tendo em conta que “ressonância” é um dos conceitos matriciais da Temporada 2026 na Casa da Música, juntamente com o de “raiz”, escutemos na “raiz” deste ciclo um excerto do discurso final de Chaplin em O Grande Ditador e reflitamos sobre como ele “ressoa” hoje, quase um século depois: “Pensamos em demasia e sentimos muito pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo se perderá”. Bem-vindos a O Grande Ecrã!